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LEMOS

RAFAEL

Quando a Justiça depende da Razão: o juiz ideal em Platão

  • Foto do escritor: Advogado Rafael Cunha Lemos
    Advogado Rafael Cunha Lemos
  • 29 de jan.
  • 2 min de leitura

Atualizado: 2 de fev.

Justiça em Platão - Advogado Rafael Cunha Lemos

Desde os primórdios da sociedade organizada, a Justiça ocupa lugar central nas discussões humanas. À medida que as pessoas passaram a conviver, negociar e entrar em conflito, tornou-se inevitável refletir sobre o que é justo, quem decide o justo e como a justiça deve ser aplicada.


Na tradição da filosofia grega, Platão demonstrava uma atração quase visceral pelo tema. Em A República, refletiu de forma incansável sobre o significado da justiça e sobre como estruturar uma sociedade verdadeiramente justa — ou, ao menos, mais próxima desse ideal.


Para Platão, a justiça não se confunde com a mera legalidade. Ela é, além de tudo, harmonia: o equilíbrio racional da cidade e da alma, rompido pelo conflito e restaurado pela razão.


Nesse contexto, Platão atribui especial importância à figura do juiz — aquele que exerce a função política de concretizar a justiça na vida social. Sem ele, a justiça permaneceria restrita ao plano das ideias, incapaz de se realizar na pólis.


O filósofo sustenta que o bom juiz não é o jovem, nem tampouco aquele que domina apenas o conhecimento técnico das leis, mas aquele que:


– viveu o suficiente para conhecer a injustiça;

– não é injusto, nem se identifica com o vício;

– possui equilíbrio moral e domínio da razão.


Platão afirma que o juiz ideal deve conhecer o mal por observação, não por prática. Ele reconhece a injustiça nos outros sem praticá-la, compreende o erro humano sem se tornar cúmplice dele. Sua alma não é corrompida, mas orientada pela razão.


Assim, o juiz verdadeiramente justo, ao aplicar a lei, deve estar antes de tudo subordinado à razão — e não às paixões, interesses ou conveniências.


Resta, então, a reflexão inevitável: o contexto social contemporâneo oferece espaço para que esses valores sejam efetivamente praticados, diante dos desafios éticos e morais do nosso tempo?


O que os nossos juízes ainda carregam dos princípios que originalmente norteavam essa função?

Como a sociedade contribui para que tais valores se mantenham vivos?

E, afinal, as leis do nosso ordenamento são suficientes para garantir que a justiça seja, de fato, aplicada?


A reflexão platônica sobre a justiça e sobre a figura do juiz permanece atual justamente porque não se limita à estrutura das leis, mas à formação moral de quem as aplica. Em um cenário social marcado por pressões políticas, interesses econômicos e crises éticas recorrentes, o ideal do juiz subordinado à razão — e não às paixões — revela-se não como um modelo ultrapassado, mas como um parâmetro crítico indispensável.


Pensar a justiça hoje, à luz de Platão, é reconhecer que sua efetivação depende menos da sofisticação normativa e mais do compromisso ético de quem exerce a função de julgar.



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